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Porto Alegre sedia o mais antigo hospital do Rio Grande do Sul — a Santa Casa de Misericórdia da cidade. Suas histórias são indissociáveis, desde a formação inicial da Capitania, no distante século XVIII. Sua criação está ligada ao Irmão Joaquim Francisco do Livramento, natural de Desterro (Florianópolis), que, nas últimas décadas dos anos 1700, percorreu algumas vilas coloniais, pregando a caridade e fundando instituições em socorro aos necessitados. Foi assim que, em 1776, veio a Porto Alegre, onde constatou que não havia uma casa em que os doentes pudessem ser tratados. Verificou, curiosamente, a iniciativa de Ângela Reiúna, que, no seu asilo situado na Rua dos Pecados Mortais (Rua Bento Martins), acolhia, principalmente, os doentes marítimos que chegavam à cidade. Mais tarde, quando o Irmão Joaquim retornou, Ângela e outros dois benfeitores, Antônio José da Silva Flores e Luiz Antônio da Silva, que recolhiam esmolas para preparar alimentos aos pobres, tinham falecido. Entretanto, haviam deixado como legado uma enfermaria para necessitados, construída sobre tijolos das muitas olarias que existiam na cidade.

Localizada no Alto da Bronze, a enfermaria começou a funcionar em 1795, projeto a que o Irmão Joaquim se associou, decidindo ir a Lisboa, às suas expensas, sugerir a criação de hospitais de caridade, especialmente em Desterro (Florianópolis), sua terra natal, e em Porto Alegre. Portador de um documento da Câmara de Vereadores, datado de 3 de abril de 1802, dirigido ao Príncipe, o Irmão Joaquim foi recebido no Palácio de Queluz. No ano seguinte, em 14 de maio de 1803, foi expedido o Real Aviso, dirigido ao Governador da Capitania de Rio Grande de São Pedro, Paulo José da Silva Gama, com a resposta favorável ao intento. Meses depois, em sessão da Câmara, no dia 19 de outubro daquele ano, ficou oficializada a criação da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, data consagrada de aniversário da Instituição.

Situada fora do antigo povoado, no alto da colina, sua construção foi animada, especialmente após a criação da Irmandade, constituída em 1814, que, no ano seguinte, teve a sua primeira Mesa Administrativa eleita. A partir da atuação da Mesa, e vencidas as dificuldades com as obras, a Santa Casa de Porto Alegre, em 1820, se impunha no alto da vila. O naturalista francês Saint-Hilaire, nesse ano, ao visitar Porto Alegre, a seu respeito registrou:

Fora da cidade, sobre um dos pontos mais elevados da colina onde ela se acha construída, iniciou-se a construção de um hospital, cujas proporções são tão grandes, que provavelmente não seja terminado tão cedo; mas a sua posição foi escolhida com rara felicidade, porque é bem arejado, bastante afastado da cidade, para evitar contágios; ao mesmo tempo, muito próprio para que os doentes fiquem ao alcance do socorro de qualquer espécie. (SAINT-HILAIRE, 1987).

A inauguração da primeira enfermaria do Hospital, acompanhada da capela em louvor ao Senhor dos Passos, aconteceu no dia 1a de janeiro de 1826, anos depois da Independência do Brasil. Naquela data, o Presidente da Província, e também Provedor da Santa Casa, Visconde de São Leopoldo, celebrou com a comunidade o início oficial da Instituição.

Logo integrada à população local e regional, a Santa Casa passou a cumprir seus múltiplos papéis, conforme regulamentava o Compromisso da Misericórdia, instituição idealizada e criada em Portugal, por vontade da Rainha D. Leonor, no ano de 1498. Ela tinha como missão curar os doentes, acolher as crianças abandonadas e os alienados, socorrer nas epidemias e enterrar os mortos. E assim os provedores, acompanhados das diretorias eleitas (Mesas Administrativas), dirigiram a Santa Casa de Porto Alegre durante sua trajetória.

Ao longo dos anos 1800, a nova instituição tornou-se abrigo dos menores abandonados (a contar de 1837, com a criação da Roda dos Expostos) e dos militares feridos durante as rebeliões ou guerras que assolaram o Rio Grande do Sul durante o século XIX, como a Guerra Civil Farroupilha e a Guerra do Paraguai. Amparou os velhos que não tinham onde asilar-se e tratou da população pobre e do escravo que ali procuravam curar-se das mais diversas moléstias.

Além de atender a população nas mais diversas necessidades também possuiu no seu quarteirão um cemitério para sepultar os membros da irmandade e indigentes do hospital. Desativado o cemitério central da Instituição, a partir de 1850, a Misericórdia passou a realizar os sepultamentos de escravos e livres em outra área, localizada no bairro Azenha, fora da cidade à época. É considerado no tempo presente um verdadeiro museu a céu aberto. Distante do centro, desde então, a população ficou mais protegida com os riscos das epidemias que grassaram na capital da Província em crescimento.

Assim, o Hospital Geral da Santa Casa foi também abrigo dos doentes nos surtos epidêmicos que assolaram a vila de Porto Alegre, como no de febre amarela, em 1850, e nos de cólera morbus, em 1855, 1867 e 1876. Essas ocorrências impuseram transformações no Pavilhão Centenário (o primeiro do quarteirão), sobretudo orientadas por um maior cuidado sanitário. E para baratear os custos da manipulação de medicamentos, a Irmandade contratou,

ainda no final dos anos 1800, o primeiro boticário e montou a sua própria botica, cuja experiência e tradição na área constituem os alicerces de sua farmácia industrial.

A partir de 1893, Irmãs Franciscanas assumiram a administração interna e a enfermagem do Hospital, passando depois a atuarem em todos os setores, imprimindo à Instituição uma fisionomia mais dinâmica e de maior cuidado aos pacientes que a procuravam.

Foi nesse tempo, na virada para o século XX, que a Santa Casa transcendeu a prática estritamente assistencial que a caracterizou desde a sua criação, transformando-se em cenário do desenvolvimento científico da medicina no estado. Em seu seio, a contar de 1897, foi gestada a primeira Faculdade de Medicina do Rio Grande do Sul (atualmente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul), alicerçada no Curso Livre de Partos, ministrado na Santa Casa, e na Faculdade de Farmácia. Oficializada sua fundação em 1898, ficou evidente que a melhoria das condições do exercício da medicina, do ensino e da pesquisa na área da saúde estava ligada a uma ampliação do pequeno hospital em expansão na capital. A Santa Casa foi também a escola que acolheu os alunos da Escola Médico-Cirúrgica, Faculdade de Medicina criada ao tempo do Presidente de Estado Borges de Medeiros e depois extinta. Em meados do século XX, os dirigentes da Misericórdia de Porto Alegre idealizaram e implantaram em seu quarteirão a Faculdade Católica de Medicina, depois FFFCMPA (Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre), a atual Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

Identificada como centro de ensino e de pesquisa, diante das demandas sociais crescentes e da necessidade de sanitarização da cidade e da promoção da saúde pública, face o processo de urbanização do Estado que a modernidade impunha, notadamente a contar da década de 1940, a Santa Casa de Porto Alegre expandiu-se em vasto quarteirão no centro da cidade. E, inclusive, no 4° Distrito (bairro industrial em crescimento) a Misericórdia demarcou a sua atuação com um hospital voltado às crianças, o Hospital da Criança Santo Antônio.

Foi assim que, estando à frente do seu tempo e perseguindo a modernidade, a Santa Casa de Porto Alegre dirigiu a construção de hospitais, o que reconfigurou o amplo complexo dedicado à ciência médica em suas especialidades: Hospital São Francisco (1930 — para atendimento aos pacientes privados, com o objetivo de melhor cumprir a missão da Misericórdia), Pavilhão Daltro Filho (1940 — para a Maternidade Mário Totta e enfermarias, como a de Crianças, e consultórios), Hospital São José (1946 — para a Neurocirurgia),

Pavilhão São Lucas (1948 — para a Hematologia), Pavilhão Cristo Redentor (1948 — para enfermarias e serviços), Hospital da Criança Santo Antônio (1953 — para a Pediatria), Pavilhão Pereira Filho (1965 — para a Pneumologia), Hospital Santa Rita (1967 — para a Oncologia) e Hospital Dom Vicente Scherer (2001 —para Transplantes).

No advento do século XXI, a Santa Casa de Porto Alegre se transformou em um dos principais centros de transplantes de órgãos da América Latina. Reconhecidamente é a instituição pioneira no Brasil em transplantes conjugados de rim e pâncreas. Realizou em seu complexo o primeiro transplante de pulmão na América Latina e é um dos poucos centros brasileiros que realiza transplantes de fígado e de rim. Sua proeminência na Neurocirurgia, Pneumologia e Cardiologia, além de outras áreas da ciência médica, igualmente transcende as fronteiras nacionais e as da América Latina.

O seu pioneirismo, assentado na tecnologia avançada de que dispõe, e na qualificação e dedicação de sua equipe médica, de enfermagem e funcional, faz da Santa Casa de Porto Alegre uma instituição detentora de um forte poder simbólico a que se agregam laços estreitos de pertencimento da sociedade porto-alegrense e da gaúcha. Sem dúvida, em fins do século XVIII, o seu idealizador, o benemérito Irmão Joaquim Francisco do Livramento, ao dirigir-se ao Rei de Portugal pedindo a criação de uma Misericórdia para a capital do Rio Grande do Sul, não imaginaria que, transcorridos 200 anos, seria a sua Santa Casa um bem patrimonial tão importante para a história da capital e da do estado. Sua história expande respeito e reconhecimento de pacientes por ela atendidos, oriundos inclusive de outros estados brasileiros e de países vizinhos. A comprovar isso estão os prêmios que têm recebido, com destaque o Prêmio Nacional da Qualidade 2002 , sendo a primeira instituição hospitalar no Brasil a ser agraciada no gênero por seu desempenho.

Atualmente, revendo-se a sua atuação bicentenária, constata-se que, mesmo em tempos de crise que a Instituição atravessou, ela esteve incontinente, pautada pela ética, equidade, humanismo e credibilidade; e possuidora de uma história a que se compromete preservá-la e difundi-la. Também por isso, acreditada e respeitada, ora persegue a promoção de um programa de saúde integral, em que educação em saúde, história e cultura alicerçam o futuro que, no presente, sua comunidade interna constrói voltada para a comunidade externa. Com essa visão, a Santa Casa de Porto Alegre inaugura, igualmente, na atualidade, o seu pioneirismo, abrigando um espaço para a guarda e a difusão da sua memória. Ou seja, por reconhecer que a sua história é fundamento e alicerce de seu compromisso com a promoção da vida, ela referencia o seu norte a partir do reconhecimento de que é patrimônio da cidade e

do estado. Com essa perspectiva ela se situa como modelo de instituição hospitalar que responde aos desafios multidisciplinares das ciências que a dimensionam na contemporaneidade, sem perder de vista a sua função, exercida com responsabilidade social, dirigida às sociedades local e regional, para as quais foi criada e balizada ao longo de sua rica e profícua trajetória.

Com esses fundamentos, há 23 anos, o Centro de Documentação e Pesquisa da Santa Casa (CEDOP) foi criado. No tempo presente, com nova denominação — Centro Histórico-Cultural Santa Casa —, ele constituirá em sua sede definitiva o espaço para a comunidade exercer o seu direito à cultura e à memória histórica. Com esse diferencial, o mais antigo hospital criado no estado, e em contínuo e ininterrupto funcionamento, se coloca com responsabilidade social, estabelecendo uma ponte de ligação com a sociedade regional, com fortes laços de pertença, condição fundamental para o reconhecimento da cidadania, por todos desejada, no passado e no presente*.

*Texto produzido pela historiadora Véra Lucia Maciel Barroso, utilizando as seguintes referências:

– FONTES DOCUMENTAIS do Acervo do Centro Histórico Cultural da Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
– FRANCO, Sérgio da Costa; STIGGER, Ivo. Santa Casa 200 anos: caridade e ciência. Porto Alegre: Ed. da ISCMPA, 2003.
– SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem ao Rio Grande do Sul. Porto Alegre: ERUS, Martins Livreiro, 1987.

Linha do tempo

1803 – Fundação da Santa Casa
1814 – Fundação da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre
1826 – Inauguração da Santa Casa
1834 – Primeiros registros de entrada de doentes mentais na Santa Casa
1837 – Criação da Roda dos Expostos
1850 – Fundação do Cemitério da Santa Casa
1884 – Fundação do Hospital São Pedro a partir da Enfermaria dos “Alyenados” da Santa Casa
1898 – Fundação da primeira escola de medicina do Estado, hoje Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
1915 – Primeiro Bloco Cirúrgico em funcionamento
1930 – Inauguração do Hospital São Francisco
1938 – 1º Transplante de Córneas
1940 – Fechamento da Roda dos Expostos e inauguração da Maternidade Mario Totta
1946 – Inauguração do Hospital São José
1951 – Fundação da Escola de Enfermagem São Francisco de Assis
1953 – Inauguração do Hospital da Criança Santo Antônio
1954 – Fundação da Escola de Enfermagem Madre Anna Moeller
1955 – Início da Construção do Hospital Santa Rita
1961 – Inauguração da Faculdade Católica de Medicina, atual Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA)
1965 – Inauguração do Pavilhão Pereira Filho
1967 – Inauguração do Hospital Santa Rita, com administração independente
1977 – 1º Transplante de Rim
1985 – Reconhecimento como Hospital-Escola
1987 – 1º Transplante Conjugado de Rim e Pâncreas no País
1988 – Renovação do Hospital São José
1989 – 1º Transplante de Pulmão na América Latina
1989 – Incorporação do Hospital Santa Rita ao Complexo Hospitalar Santa Casa
1990 – Renovação do Pavilhão Pereira Filho
1991 – 1º Transplante de Fígado
1993 – 1º Transplante Duplo de Pulmão na América Latina
1995 – Certificado “Hospital Amigo da Criança” conferido pela OMS / UNICEF
1995 – 1º Transplante de Coração
1995 – Prêmio Destaque do Ano na Área da Saúde – Complexo Hospitalar Santa Casa
1996 – 1º Transplante Conjugado de Fígado e Rim do Estado
1997 – Renovação do Hospital São Francisco
1997 – Prêmio Destaque do Ano na Área da Saúde – Hospital São Francisco
1998 – Inauguração do novo Ambulatório Central e Laboratório Central de Análises Clínicas
1998 – Prêmio Qualidade RS Troféu Bronze
1998 – Prêmio Top de Marketing ADVB/RS
1999 – Prêmio Qualidade RS Troféu Prata
1999 – Lançamento da Pedra Fundamental da construção do Hospital Dom Vicente Scherer
1999 – 1º Transplante de Pulmão Intervivos
2000 – Ampliação e modernização do Hospital Santa Rita
2000 – Prêmio Qualidade RS – Troféu Ouro
2001 – Inauguração do Hospital Dom Vicente Scherer
2001 – Prêmio Qualidade RS – Troféu Ouro
2001 – Prêmio Top Ser Humano: Case – “A Qualidade de quem faz está na qualidade do que é feito.”
2001 – Prêmio Qualidade Hospitalar 2001 – Categoria Nacional
2002 – Inauguração do novo prédio do Hospital da Criança Santo Antônio
2002 – Prêmio de Acreditação PALC 2002 – Laboratório Central de Análises Clínicas da Santa Casa
2002 – Prêmio Nacional da Qualidade
2003 – Ano do Bicentenário da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre
2003 – Inauguração do CIEM – Centro Integrado de Emergências Médicas
2005 – Renovação física e atualização tecnológica do Hospital São Francisco
2005 – Início das obras de modernização tecnológica e ampliação das estruturas físicas do Hospital Santa Clara
2005 – O foco da Santa Casa passa a ser Saúde em todas as dimensões
2005 – Lançamento da campanha para revitalização das casas da Avenida Independência, sede do Centro Histórico-Cultural Santa Casa
2006 – Comemoração da realização de 2.000 Transplantes de Rim
2007 – Inauguração da Capela do Hospital da Criança Santo Antônio
2007 – Inauguração do novo Ambulatório do Pavilhão Pereira Filho
2007 – Inauguração da Estação Digital nos Hospitais Santo Antônio e Santa Rita
2008 – A Santa Casa recebe, através do Ministério da Educação, a recertificação de Hospital de Ensino
2010 – Início da construção do prédio do novo estacionamento da Santa Casa
2012 – Hospital da Criança Santo Antônio se torna o primeiro hospital pediátrico brasileiro a conquistar a Acreditação pela Joint Commission International (JCI)
2012 – Inauguração do Edifício-Garagem, com nove andares e 936 vagas
2014 – Inauguração do Centro Histórico-Cultural Santa Casa

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